A Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata (ORTC), fundada em 2007 por descendentes de Hilária Batista de Almeida (1854-1924), tem como missão a promoção da cultura e a conservação do patrimônio histórico e artístico, através de atividades culturais, direcionadas à educação, saúde, defesa da mulher, desporto e meio ambiente. Sua presidente Gracy Mary Moreira, bisneta de Tia Ciata, representa quatro gerações inseridas de corpo e alma no florescimento da cultura afro-fluminense.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A fertilidade das cinzas

O DIA ONLINE - ir para a capa opinião Célia Domingues

Rio - A capacidade de superar obstáculos e de renascer está tão enraizada na alma do sambista como a própria beleza de sua arte. Assim como os poetas do samba transformam tristeza em canções do mais puro encantamento, os trabalhadores e artistas que desfilam sua arte na Marquês de Sapucaí, sempre que demandados pelas catástrofes da vida, fazem emergir uma energia de transformação que recria conceitos e fortalece ainda mais o maior espetáculo da Terra. Os olhos do mundo se voltaram para a Cidade do Samba na última segunda-feira, certamente inundados de lágrimas, com o inacreditável incêndio que destruiu fantasias e alegorias de três escolas de samba Grande Rio, Portela e União da Ilha — e do Barracão Cultural, onde funcionam os projetos sociais que formam artesãos para os bastidores desta grande festa popular. As labaredas espalharam pelo céu da Cidade Maravilhosa mais do que uma densa fumaça. Espalharam a mensagem de destruição, não apenas de alegorias, fantasias e adereços, mas também de sonhos e anseios contidos, sim, nos projetos carnavalescos, mas também nos projetos de vida de milhares de artistas anônimos.

Nos bastidores da folia, milhares de cariocas, brasileiros, encontram trabalho que os resgatam das margens da sociedade e lançam sobre eles os holofotes da oportunidade e da autoestima. O Carnaval vai muito além da Passarela do Samba. Ao longo de todo o ano, carnavalescos e compositores constroem a parte mais visível do espetáculo.

Ao mesmo tempo, um batalhão de anônimos trabalhadores costura tecido por tecido, cola pedrinha por pedrinha, esculpe e pinta cada detalhe de fantasia que brilhará na Sapucaí, dando vida à criação desses artistas. Os projetos sociais da Cidade do Samba, centralizados no quarto andar do barracão número 1, só em 2010 formaram 4.500 trabalhadores em todo o Estado do Rio de Janeiro, em ofícios dos bastidores da folia. Naquele quarto andar — que será demolido, assim como ocorrerá nos barracões das escolas atingidas — surgiram sonhos e esperanças e vimos muitas vidas reencontrarem novos rumos a partir do samba e do Carnaval. Impossível não lembrar do mito grego da Fênix, que ao morrer é consumida pelo fogo, para renascer das cinzas. “Desde que o samba é samba é assim”, desde Tia Ciata é assim.

O fogo — que se respeite o fogo, como a água e todas as energias da natureza — nos deu a cinza que pode fertilizar uma nova história. Devemos arregaçar as mangas para, com nosso jeito único de viver com arte, criar novos enredos de superação, e um desfile inesquecível para a história do Carnaval do Rio de Janeiro.

Célia Domingues é presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil
e coordenadora dos projetos sociais da Cidade do Samba

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